quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Por que escolhi esse caminho?

Hoje me perguntaram o que me fez querer seguir o caminho do magistério, achei que tinha a resposta na ponta da língua, mas fiquei tão surpresa quanto Santo Agostinho deve ter ficado quando lhe perguntaram o que é o tempo. Refleti profundamente sobre a resposta dele: “Se ninguém me perguntar, eu sei explicar, se me perguntar, eu já não sei.”, como se isso pudesse trazer minha resposta.
A menina estava fazendo um trabalho para a faculdade, aquela era uma das muitas perguntas a que eu deveria responder. Pensei em abordar o assunto de forma didática, explicando todo o meu percurso até chegar ali, abandonei imediatamente a ideia. Formulei uma resposta mais complexa, que envolvia todo um ideário social revolucionário, também deixei de lado todo esse conceito e finalmente me vi respondendo que queria simplesmente deixar uma marca nos meus aprendizes.
Os belos olhos castanhos da estudante do segundo período de Letras continuaram a me inquirir, mas não lhe disse o que aquilo significava para mim, essa é a minha história de amor com a profissão, não a dela.
Quando a jovem se foi, provavelmente pensando no quanto eu fora vaga, cismei em racionalizar minha resposta e concluí: se deixarmos pegadas nas areias da praia, o mar as apagará, caso as deixemos na neve, os próprios flocos gelados ou o degelo tratará de fazer o serviço, podemos ainda fincar nossos pés nas estradas de terra batida que existem por aí, no asfalto quente das ruas, nas vielas barrentas onde o pavimento ainda não chegou, nas escadas, nos morros... tudo isso será apagado pelo tempo.
Mas nada varrerá da mente de nossos alunos o que conseguirmos passar para eles, mesmo que não se lembrem o nosso nome, mesmo que não se recordem do som da nossa voz, mesmo que sequer evoquem os tempos da escola...
Não precisamos que guardem todas as fórmulas de física, precisamos que se lembrem que é uma ciência que trata do estudo da natureza e de como ela interage conosco; que a matemática nos ajuda a desenvolver o raciocínio; que a química está em tudo, desde elementos da natureza até nós mesmos, os humanos; que a biologia se dedica a entender todas as formas de vida do planeta.
Temos ainda a história, que pode ser usada a fim de compreender o passado, o presente e ainda tecer considerações sobre o futuro, queremos que nossos pupilos tenham ciência de que a geografia é muito mais do que gravar nomes de mares e rios, que a filosofia nos torna seres mais críticos, mais reflexivos, menos passivos diante das mudanças do mundo; a sociologia nos mostra como a sociedade funciona, ou ainda, onde ela é falha; a educação artística serve para se expressar, entender a expressão dos artistas e ainda, como forma de aquisição cultural; as línguas estrangeiras, tão massacradas, tão diminuídas pelo sistema, servem não apenas para ensinar gramática, mas para aproximar os estudantes das músicas que ouvem e dos filmes que assistem, é uma forma de descortinar um pouco as culturas estrangeiras; a educação física não estimula apenas a feitura de exercícios físicos, por meio dela, novos talentos da ginástica e do esporte podem ser descobertos...
Não por acaso deixei para falar por último sobre a nossa língua materna. Afinal para que ela serve? “Falamos português!”, dizem, “Não precisamos estudar isso!”, argumentam eles.
Entendendo o falar como fator de identificação social, precisamos ensinar nossos a alunos a se expressar bem, tanto na oralidade, como na escrita, a fim de que não sejam rotulados por “favelados” e outros termos pejorativos. Através do ensino de Língua Portuguesa, podemos mostrar que o lugar deles é onde quiserem estar, seja em uma comunidade ou em um teatro, seja em uma “resenha”, como carinhosamente chamam suas próprias festas, ou na universidade, onde é o lugar deles.

Oferecendo o nosso melhor, na medida do possível, porque hoje o nosso melhor está condicionado, infelizmente a fatores externos, estaremos marcando-os, para sempre, rumo ao futuro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

À ausente

Sem voz...
 Tão etérea apareces em meus sonhos.
Com olhos brilhantes, mas tão inacreditável!
que acordo e descubro que estava dormindo.
Quando penso que está, já esteve.
Um toque, um beijo... talvez...
E a bruma se desfaz no sol da manhã.
Que seja em sonho, ilusão , o que quer que seja!
Mas já não é nada, porque não há mais o que ser.
Tão distante, tão dentro do passado,
que não posso mais te enxergar.
Sua risada é uma lembrança sem eco...
Sua presença, hoje é ausência...
Você já não é mais...

E eu jamais serei o que seria contigo ao meu lado.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O que fazer quando o quintal do vizinho é mais bonito que o seu?
Todos os dias ela varre o chão, cata as folhas mortas que caem da frondosa árvore, ensaca tudo e joga no lixo. Ele a beija antes de sair e diz que a ama.
Comercial de margarina? Não, são os seus vizinhos vivendo o casamento perfeito deles. Daí você olha para o seu próprio quintal e percebe que não o varre faz tempo, cata as folhas o mais depressa possível e não recebe beijo do marido porque ele já foi trabalhar.
O pensamento lhe é complacente, ele te diz que você não tem tempo para tudo aquilo, que dá o seu melhor... mas quando se casou imaginava que o seu melhor era muito mais que o do comercial de margarina da vizinha.
E por um longo tempo foi mas, assim como a poeira começou a passar um ou dois dias a mais do que o costumeiro prazo suportado por você, depositada nos móveis, você começou a achar que varrer diariamente o quintal era besteira, que encostar os lábios secos um no outro logo pela manhã era hipocrisia e finalmente que fazer sexo três vezes por semana era rotina, uma estranha rotina e pontual rotina.
Jamais parou para se perguntar se o que incomodava era realmente a bela vista da casa do lado ou a falta de visão que tinha de si mesma.
Olhar no espelho nem pensar! Para quê? Para ver olhos cansados que só com muita maquiagem dava para disfarçar, ou para olhar a boca que não parece mais tão convidativa, ou ainda, os cabelos começando a ficar menos viçosos? Não!
Varrer o que quer que seja, movimenta todo o seu corpo; catar as folhas mortas e jogar fora, abre seu espírito para novas sensações; encostar a boca na outra logo nas primeiras horas da manhã e nas últimas da noite significa que você ainda se importa com o outro, porque essa não é uma atitude comandada por suas necessidades físicas, podendo ser chamada então de um ato de carinho.
A não ser que esteja veementemente preocupada em engravidar, não conte quantas vezes faz sexo por semana, simplesmente faça, mesmo quando não estiver com muita vontade. Permita que seu cheiro atraia seu parceiro, como o aroma da flor atrai as abelhas. Se abra para o inesperado, seja numa noite morna de primavera ou numa fria manhã de inverno...
Não avilte seu corpo, mas não permita que ele se acomode!
O espelho não pode jamais ser seu inimigo, ele está ali para te mostrar para você mesma. Se há rugas, ele não as esconde a fim de que você encontre uma maneira de lidar com elas, seja usando um creme para suavizá-las ou simplesmente ostentando com orgulho sua idade.
Os olhos estão cansados, veja se esse cansaço é físico ou mental, se for físico, adquira hábitos mais saudáveis, se for mental, busque não perder noites de sono com problemas, dificilmente eles serão resolvidos à noite,
Os cabelos, rebeldes, apáticos, volumosos ou enroscados em si mesmos, tem solução, procure um especialista.

Nada que está ao lado do que te pertence é melhor, nem mesmo você deve se esforçar para igualar ou superar, deve apenas reavaliar se realmente está dando o seu melhor.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Além de mim

Sinto que as palavras me fogem,

como fugiram as lembranças do meu passado:

dos teus dedos entrelaçados, encaracolados nos meus.

A caneta descansa manhosa em minha mão, não respira:

como não respiramos naquele último gozo.

Sem saber o que era dia, o que era noite

se era começo ou fim, se eram estes ou aqueles,

fomos um só:

uma luz, uma carne, um desejo... uma solidão.

Respiramos...

Eis que intrépida, ela volta a correr pelo papel.

Novo suspiro, a boca carnuda se mexe.

A tinta cruelmente marca a alvura da folha.

Com as gotas ainda se derretendo na pele quente,

marcando nossos prazeres inesquecíveis,

ouço:


Adeus.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Os imorais

         Sozinha, sempre sozinha. Mas... dessa vez parecia que era bem diferente... a solidão... aparentava ser maior... Ele dissera que respeitaria a decisão dela. Que homem responde assim a um término? A resposta óbvia e a que ela não queria encarar era: um homem que não estava apaixonado. Mas como um homem fica com uma pessoa por dois anos sem estar apaixonado? Era melhor nem tentar responder, isso só traria mais dor e sofrimento.
         ___ Senhora, aqui está a sua taça de vinho.
         ___ Obrigada.
         Mirava a bebida sem tocá-la.
         ___ Posso me sentar­?
         A pergunta vinha de um estranho. Alto, cabelos castanhos lisos, queixo quadrado e olhos decididos.
         ___ Não.
         ___ Eu acho que você está sozinha e que eu posso sentar aqui.
         ___ Quanto a mim, eu acho que você está sendo extremamente inconveniente.
         ___ Acho que tem muito mais coisas sobre mim que você pode conhecer.
         ___ Isso se eu estivesse interessada.
         Olhavam-se nos olhos. Havia uma batalha sendo travada ali.
         ___ Mas você vai ficar.
         ___ Convencido! _ disse indignada.
         ___ Creio que começamos com o pé esquerdo. __ o estranho decidiu aliviar a tensão __ Meu nome é Leandro. Eu só vim até aqui porque o bar está cheio, não há nenhuma mesa vazia e eu não queria ficar em pé, achei que seria boa ideia, já que você também está sozinha, fazermos companhia um para o outro.
         ___ Eu posso estar esperando alguém.
         ___ Isso é verdade, mas a observei. Chegou com o rosto carregado, poderia ser resultado de um dia ruim no trabalho ou uma briga com o namorado. Pelo olhar perdido, decidi pelo último... provavelmente estava relembrando uma série de coisas... por fim, e não menos importante, se estivesse esperando alguém, provavelmente estaria com o celular em cima da mesa, caso a pessoa ligasse dizendo que iria se atrasar, mas o seu está na bolsa, o que significa que precisa conversar um pouco.
         Tudo o que o ele dissera era verdade.
         Não sorriu, mas não se opôs a presença dele à mesa, apenas pegou sua  bebida.
         O fato de ela não falar nada parecia não incomodá-lo.
         “Vai ver ele só queria mesmo sentar.” Pensou.
         ___ Você ainda não me disse o seu nome. Agora que já somos amigos, seria bom saber como devo chamá-la.
         ___ Sou Dalila.
         As pessoas sempre se sentiam impactadas ao ouvir seu nome, lembravam da mulher que traiu Sansão.
         Não usou de artifícios para tocá-la, apenas fazia questão de sustentar o olhar curioso que lhe era dirigido, quando. Sentia que ela estava atraída por ele, mas como um leopardo, não tinha a menor pressa em atacar sua presa, sua atitude com a moça era quase displicente, por assim dizer.
         Normalmente, era uma mulher comedida, sensata, mas naquele momento se questionara sobre onde toda aquela solidez a levara; Wagner, o ex, parecia ser o candidato perfeito para o cargo de seu marido: tinha um bom emprego, um carro razoável, pelo menos não estava caindo aos pedaços, era mais velho, vivido, sem filhos...
         Pensar nele ainda a deixava triste, mas não ficaria... não com aquele homem todo a sua frente!
         De repente, sentiu uma mão subindo pela sua coxa e a deteve.
         ___ Você não é nada sutil, heim!
         Estava afogueada, com a respiração acelerada.
         ___ Queria saber se você é tão quente quanto parece.
         Dito isso ele a beijou, longa e demoradamente.
         Aquela era a deixa para pedirem a conta.
         Ainda agarradinhos e trocando beijos ardentes, fizeram sinal para um táxi que apontara na esquina. Ela foi a primeira a entrar, chegou para o lado e deixou espaço para que ele fizesse o mesmo, mas a porta se fechou.
         ___ Boa noite, querida. Cuide-se.
         Pasma, ela o viu se afastar.
         ___ Para onde vamos, senhora?
         Envergonhada pela situação óbvia, ou pelo menos assim parecia ser em sua cabeça, deu o seu endereço.
         A casa, como sempre, estava silenciosa. As paredes brancas, sem quadros ou fotos, pareciam estar no mesmo lugar; a cama estava vazia e desarrumada, como a deixara; a louça na pia indicara que tomara café sozinha.
         ___ Patético.
         Caiu na cama em um choro convulsivo. Odiava sua vida, odiava Leandro... Naquele dia, podia-se dizer que odiava a si mesma.
         As lágrimas secaram sem que percebesse, sem que se desse conta de que o sono estava tomando conta dela. Soluçou um pouco, suspirou e dormiu.  
Sonhou com o ex... ele estava lhe estendendo as mãos, mas atrás dele só havia uma luz desbotada e uma casa suja. Deu-lhe as costas, foi então que viu Leandro, ele estava nu. Ela sorriu para ele e caminhou em sua direção, mas seus olhos estavam frios, ele a subjugou, fez com que se ajoelhasse. Frente a frente com seu membro, ela sente apenas o impulso de colocá-lo na boca e sugar. Jamais havia gostado de fazer sexo oral, mas... parecia tão certo, tão bom.
Ele puxou com força seus cabelos para trás, ela queria continuar, mas ele não permitiu, apenas a olhou, com o pênis ereto. Aos poucos ele foi diminuindo a pressão em sua cabeça e ela esfregou o rosto nos pelos encaracolados e grossos.
Em um piscar de olhos, Wagner estava ao lado dela, olhando-a com desdém.
Ela saiu correndo dali, correu até suas pernas pesarem como chumbo e não conseguir dar mais um paço.
Acordou cansada e suada, era sábado, dia de lavar a roupa e limpar a casa. Resolveu que não faria nem uma coisa nem outra, iria à praia. Foi sozinha. Esse tipo de solidão não a incomodava, até gostava de sair só, embora não gostasse de estar nessa condição no final do dia, mas sabia que quando chegasse estaria exausta, talvez nem comesse nada, tomaria um banho e dormiria, esperaria o domingo.
         E assim foi...
E assim foi durante toda aquela semana e as seguintes: casa, trabalho,  trabalho, casa.
Uma amiga, Lúcia, fazia aniversário naquela sexta – feira, era sempre muito animada, mas andava triste por conta de um divórcio difícil: o marido, depois de doze anos de casados, exigia ficar integralmente com a casa que haviam comprado juntos. A insólita situação estava consumindo a alegria de viver da pobre mulher.
Os amigos, cientes do que estava se passando, resolveram levá-la para comemorar. O lugar escolhido foi justamente o restaurante-bar onde Dalila conhecera Leandro.
Tentou convencê-los a irem para outro bar, mas suas tentativas foram inúteis, alegaram que lá era a meio caminho da casa de todos.
A aniversariante ficou comovida com a homenagem, fez discurso, agradeceu a todos, tirou tantas fotos quanto pôde.
___ Só não é feliz quem não quer.
A voz sussurrada vinha de alguém que estava atrás dela.
Muda de espanto e raiva, se virou furiosa. Havia fogo em seus olhos. Resplandecente, ele sorria.
___ Não vai me apresentar à aniversariante?
Colocou firmemente a mão em sua cintura e foi até onde estavam. Identificou-se como sendo um amigo de Dalila e o convidaram para juntar-se ao grupo. Solícito, tirou mais fotos de todos e conversou bastante.
Pálida, a moça não conseguia sair de seu torpor, para ela a festa havia acabado.
___ Por que você não relaxa?
___ Você é muito cínico! Depois de tudo o que aconteceu...
A resposta dele foi abafada pelos gritos de felicidade com a chegada da torta para cantarem parabéns.
___ Ah, ha, uh hu, Lúcia eu vou comer o seu bolo. __ cantavam.
Meio embriagados, mas muito felizes, um a um foi embora.
Dalila pegou sua bolsa e se encaminhou para a saída.
___ Espere. Por favor, espere.
Contrariando seus próprios instintos, ela parou.
Impetuosamente, ele se aproximou e começou a cheirar seu pescoço.
___ Espere. __ disse com voz rouca __ Ainda não pude te falar...
___ Somos adultos, sabemos o que houve...
___ Eu vi que você não estava legal... não podia me aproveitar disso.
___ Essa foi a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi.
___ É verdade! __ disse indignado.
Ousado, acariciou-a na nuca e desceu lentamente a mão por suas costas, sabia que havia derrubado a resistência dela. Beijou-a.
Dessa vez entraram no táxi juntos. Ele a levou a um motel que costumava frequentar. No elevador, ele sentiu um resquício de arrependimento da parte dela, que tratou logo de abafar com carícias deliciosas. Ela não o havia esquecido, e ali consistia a vantagem dele.
Colocou a banheira para encher, ligou a música e pegou uma bebida no frigobar. Ela o observava e percebeu como ele se movia naquele ambiente, parecia que estava em casa; Sentiu uma pontada de ciúme no coração, a primeira de muitas.
“A água está maravilhosa.” Pensou. “Ele sabe agradar uma mulher.”
Quando ele entrou, sentou do lado oposto ao dela, apenas bebericava o vinho e a olhava. O sorriso que ela lhe dirigiu mostrava como estava feliz.
Fez sinal para que se aproximasse, abriu as pernas e Dalila sentou no meio dele. Leandro massageou brevemente seus ombros, tocou-lhe o seio direito, sem pressa, com a mão esquerda, acariciou seu ventre, passando para a parte de baixo. Como um perito, encontrou um pequeno ponto, uma bolinha tensa e levemente enrijecida.
Ela suspirou, gemeu alto...
Ele não se deixou impressionar por isso, continuou tocando-a, mas com o cuidado de não penetrá-la enquanto estava na água para não correr o risco me ferir seu genital.
Foram para a cama. Ali ele não foi gentil como havia sido na banheira. Prendeu-a jogando todo o peso em cima dela e penetrou-a com força. Quando Dalila pensou em dizer algo, o único som que saiu de sua garganta foi um longo e lascivo gemido. Ela estava gostando de ter aquele homem forte e grande em cima dela, penetrando-a impiedosamente.
Mas ela não era uma gatinha tão mansa assim. Com ímpeto conseguiu ficar por cima dele e controlar a cadência dos movimentos. Leandro segurou seus quadris, apalpou suas nádegas, até que a penetrou por trás com um dedo. A dupla penetração levou-a ao delírio. Jamais havia feito sexo daquele jeito, Wagner era extremamente trivial nesse ponto.
Com um movimento brusco, ele a dominou novamente e a virou de costas, assustada, pensou nas milhares de coisas que escutara sobre o que estava prestes a acontecer. Pensou em gritar, pedir por socorro, quando sentiu a mão dele em sua vulva, acariciando-a, estimulando-a...
Envergonhada por ter tido tais pensamentos, começou a entrar no clima, quando sentiu que ele beijava suas costas, foi fazendo isso até embaixo. A língua dele parecia não cansar nunca. Preconceituosa, ela achava aquela região inóspita demais, não achava que algo assim pudesse ser tão bom.
Molhada pela saliva dele tanto atrás quanto na frente, sentiu ainda que algo pegajoso estava sendo espalhado nela, mas não se importou, os dedos dele continuavam dedilhando-a sem parar.
Consciente de que era a primeira vez dela naquela modalidade, Leandro colocou um pouco, depois mais um pouco, mordiscou-lhe a nuca, mais uma vez ouviu o gemido dela... mais um pouco... até que ouviu:
___  Coloca tudo.
Vitorioso, assim fez, entrou, saiu, tornou a entrar. Ela era tão apertada...
Sentiu que ela estava gozando, sentiu o pequeno gozo dela em seus dedos e as contrações que sentiu em seu membro, ainda dentro dela, indicavam isso.
Como já não aguentava mais segurar, gozou também, com uma última arremetida para frente.
Ele se esticou ao lado dela, não a encarou, nem a tocou, apenas olhou para o teto.
Sem saber o que fazer, afinal achava que uma experiência tão maravilhosa como aquela deveria ser finalizada com beijos e abraços calorosos, Dalila foi ao bar pegar alguma coisa para beber. Viu uma garrafa d’água, mas precisava de algo forte e o melhor que encontrou foi a garrafa de vinho recém aberta. Não ousou olhar para a cama e perguntar se ele queria, serviu-se e ficou parada ali.
Desconcertada, tomou o vinho de um gole só. Todos os seus demônios a afligiram naquele momento, se sentia suja, usada...
Ligou o chuveiro, deixou que o ambiente ficasse coberto de vapor d’água, queria se esconder.
“Não posso me esconder da minha própria mente.”
Na saída, percebeu que ele estava dormindo.
___ Calhorda!
Ele se mexeu na cama ainda nu.
“Olhando ele assim, de pau mole, nem parece tanta coisa.”
Pensou enquanto vestia as roupas. Queria ir embora e largar ele ali sozinho, mas era uma ideia extremamente infantil e sabia disso. Deitou-se ao lado dele, completamente vestida, e esperou que acordasse.
Sem se dar conta de todo o tumulto que se passava no coração dela, Leandro tomou banho e a deixou em casa. A despedida foi simples, com um beijo rápido.
Como haviam trocado telefones ainda no táxi, ela achou que ele ligaria no dia seguinte, mas o telefone não tocou. Com o orgulho ferido, mas ainda com um arremedo de dignidade, ela também não o procurou.
Lembranças não podem ser descartadas, mas há como evitar novos pesares. Resolveu que não voltaria ao lugar onde se conheceram, não queria se trair, expor seus sentimentos.
Lúcia foi uma grande inspiração para ela, a força com que levava a vida para frente e o vigor com que trabalhava, não deixaram Dalila esmorecer.
O telefone da mesa dela tocou.
___ Oi, moça.
Só quem a chamava assim era...  Wagner.
___ Está mais calma, com a cabeça mais fria?
___ Oi. Ah...
___ Olha, eu sei que deve estar ocupada aí, mas pensei em almoçarmos juntos, o que acha? Se você quiser, chego em cinco minutos, hoje eu vim atender um cliente aqui no centro.
Aquilo realmente a surpreendeu. Wagner convidando-a para almoçar.
___ Eu... oh... eu não esperava.
___ Se for uma má hora para você, posso vir outro dia.
Ficou mais pasma ainda.
___ Eu vou descer, estarei na portaria em cinco minutos.
Pediu a Antônio que segurasse as pontas para ela caso a procurassem, disse que teria de resolver um problema e demoraria para voltar.
Ajeitou a roupa o melhor que pôde, retocou a pintura e foi.
Não sabiam como se cumprimentar, preferiram um aperto de mão. Nervosos, acabaram falando ao mesmo tempo, mas nada que realmente fizesse sentido. Ficaram calados até a chegada ao restaurante.
Pedidos feitos, era hora de conversar.
___ Eu sou uma pessoa difícil. __ disse ele __ Reconheço isso, às vezes sou meio distante...
“Às vezes... como ele é condescendente consigo mesmo.”
___ Mas eu gosto de você... senti sua falta.
Ficou emocionada, sabia o quanto ele era fechado, as palavras não brotavam facilmente do fundo de sua garganta.
___ Quero... quero ficar com você. Prometo ser mais carinhoso.
Embora soubesse que aquilo não seria possível, ele era por natureza um homem seco, percebeu que estava disposto a tentar, sentiu que poderia fazer o mesmo.
Docemente segurou a mão do homem a sua frente, ainda que não o enxergasse de verdade.
O tempo passou incrivelmente rápido, tinha que voltar ao trabalho. Despediram-se com um beijo e um abraço e a promessa de que se falariam à noite.
         Não se podia dizer que estivesse feliz, nem pisando nas nuvens, mas estava tranquila... segura; Queria estabilidade em sua vida, não queria ter que recomeçar... se abrir para um novo amor, correr o risco de dar tudo errado novamente...
         Mas a monotonia dos dias e das conversas eram perseguidores implacáveis... via o ex amante em todos os lugares... pensava tanto nele e tantas vezes ao dia, que pensou em procurar ajuda profissional, acreditava estar ficando louca.
         O vestido, que havia comprado especialmente para aquela ocasião, jazia intocado em cima da cama.
         Suspirou fundo e foi se arrumar.
         Batom, lápis, sombra, pó para o rosto, nada daquilo poderia esconder o desânimo que repousava em sua alma. Faria um esforço para que não percebessem.
         ___ Bela! Você está belíssima.
         ___ Obrigada, querido.
         Os amigos dele foram bastante discretos quanto ao tempo que passaram separados, fingiam que isso jamais havia acontecido. De alguma maneira se sentiu confortável com isso, não se lembrar da separação significava não se lembrar de Leandro, e nem de nada que haviam feito.
         Antes de a festa terminar, seguiram para a casa de Wagner.
         Ela gostaria de ter ido a um motel, considerava aquele dia especial, haviam retomado o namoro, estavam ... alegres. Mas já que o convite não fora feito, preferiu o silêncio.
         Com olhos críticos, esquadrinhou o quarto todo. Tudo estava nos mesmos lugares, até a foto que tiraram na praia, na única viagem que fizeram. O sorriso parecia congelado, vazio de promessas.
         “Ele deve ter guardado e colocado de volta, só pode.”
         Havia comprado uma lingerie bem sexy, custara absurdamente caro, mas achava que valeria a pena,  ele ficaria surpreso com a transparência da calcinha e do soutien e como lhe caíam bem.
         Ele acariciou seu corpo e sussurrou em seu ouvido:
         “Tira a calcinha.”
         Apertou os olhos com força e pensou na falta de tato dele, sequer reparara nas peçãs, ou disse que estava bonita.
         “Ele sempre foi assim... displicente.”, concluiu.
         Obediente, ela a retirou e esperou que ele tirasse a cueca. Excitado, não se demorou em preliminares. O ritmo era lento, tranquilo... o pênis  estava inchado e duro. Ela sempre se admirava em como ele ficava ereto rápido. Tinha um membro bonito, de tamanho médio e grosso, mas, infelizmente não sabia usá-lo.
         Como Wagner não gostava que ela ficasse por cima, acabava perdendo a excitação, era o próprio quem ditava como seria e em quais posições ficariam.
         Era evidente que estava preocupado com sua performance, não queria ejacular rápido demais, Dalila odiava quando fazia isso. Decidiu dar uma paradinha, sair um pouco e tornar a entrar. Ela reconheceu o esforço do namorado, mas lamentou profundamente, Wagner havia parado justo quando ela começava a sentir algo, o orgasmo não chegaria para ela, não àquela noite.
         Em alguns minutos ele gozou. Beijou-a e virou para o lado. Sabendo que seria impossível conciliar o sono, ela foi para a sala e ligou a televisão.
         Acordou por volta das cinco horas da manhã com o controle da tv nas mãos e muita dor nas costas. Não quis ir para a cama e fingir que nada acontecera, foi para fora e sentou em uma cadeira que sempre ficava ali. Observou o nascer do sol.
                 
         Que esperar de uma relação como aquela, na qual sabia que jamais sentiria prazer? Não tinha resposta. Aninhou-se em si mesma e esperou que a imensa bola de fogo estivesse alta no céu.
         Enquanto colocava a mesa do café, pensou em Leandro, em como seria fazer o desjejum ao lado dele.
         “Impossível, ele não é nada romântico. Pelo contrário!”
         Ao se dar conta de que não conseguira ver o ex affair naquela cena, visualizou Wagner, com seus olhos meigos.
         Com um dar de ombros, concluiu que não se pode ter tudo.
         Passearam pelo shopping e foram ao cinema, esse era o programa favorito de Wagner, que dificilmente aceitava as sugestões dela.
Dalila estava impaciente, e, antes que o namorado percebesse sua inquietação, disse que estava com um pouco de dor de cabeça, que gostaria de ir para casa. Ainda era sábado, haviam combinado de passar o final de semana juntos, mas não aguentaria mais uma noite insossa como a última que passaram juntos.
Ela se sentia um lixo, se questionava como poderia pensar em Leandro, um homem frio, calculista e sem caráter. As respostas não vieram durante o caminho de volta para casa, muito menos no dia seguinte.
         Wagner não tornou a aparecer para convidá-la para almoçar ou fazer algum programa juntos. Isso minava completamente sua vontade de ficar longe de Leandro. Já que era para não ter amor, pensava, que tivesse ao menos um pouco de prazer.
         Dizem que o inimigo atenta nas horas mais sombrias, no caso dela, foi ainda com o sol se pondo.
         ___ Alô.
         ___ Oi, linda, tudo bem?
         ___ Oi.
         ___ Estou te esperando aqui.
         ___ Desculpe, Leandro, mas não posso te encontrar.
         ___ Não quer nem saber onde estou?
         Ela mordeu o lábio, sinal de que estava nervosa.
         ___ Não.
         ___ Mas eu vou te dizer mesmo assim. Estou na porta da sua casa.
         Na porta dela! Sem avisar?! Ele era um irresponsável total. E se o Wagner estivesse com ela?
         Ressabiada, resolveu abrir verificar. Ele estava mesmo ali, parado do outro lado da rua, com o que parecia ser umas sacolas de supermercado.
         Veio em direção dela calmo e sorridente.
         ___ Olha, preciso te falar uma coisa. __ respirou fundo __ O meu namorado voltou... quer dizer, eu voltei com o meu ex... __ mais um suspiro __ Não posso ter nada com você.
         ___ Isso significa que ainda podemos comer alguma coisa juntos.
         Ele passou por ela na porta e foi perguntando onde era a cozinha.
         ___ Leandro, estou falando sério. Você não pode ficar aqui. __ ela começou a se desesperar e aumentar a voz __ Você não pode sumir e reaparecer do nada como vive fazendo!
         O homem parecia não ouvir uma palavra do que ela dizia.
         Perguntou simplesmente onde guardava a frigideira e o liquidificador, pediu uma série de utensílios, ao que foi atendido. Dalila estava confusa, mas não havia muito o que fazer, se conformou e tratou de ajudá-lo a preparar o que quer que fosse fazer.
         Os ingredientes eram bem diversificados: frango, sal, pimenta da Jamaica, ricota, tomate picado, papaia, soda limonada com zero açúcar, caldo de frango e vinagre balsâmico.
         ___ Posso ao menos saber o que você está preparando?
         ___ Essa é uma receita de frango vietnamita que eu aprendi com uma ex namorada. Ela é chefe de cozinha e me ensinou umas coisinhas.
         Leandro era hábil na cozinha, temperou o frango com sal e pimenta, em seguida recheou-o com ricota e pimenta, grelhou os rolinhos e reservou. No liquidificador bateu o papaia com a soda limonada e levou ao fogo, pediu-a que mexesse um pouco o molho até engrossar. Na frigideira em que o frango foi grelhado, colocou o tablete de caldo e o vinagre balsâmico, assim que a mistura ferveu, adicionou tudo ao molho que Dalila ainda mexia no fogo.
         Dispôs todo o creme no fundo de um prato grande e o frango no centro.
         Dalila se preparava para colocar a mesa do jantar, quando foi surpreendida por Leandro agarrando-a por trás.
         ___ Para com isso! __ disse com voz fraca __ Você sabe que eu não posso.
         ___ O que eu sei é que você me quer.
         Tirou a blusa que ela usava, mostrando os seios firmes, arrancou a saia e a calcinha expondo-a em toda sua nudez.
 A cozinha era bem pequena, consistia apenas de um fogão, geladeira um armário e uma pequena mesa com tampo de granito e quatro cadeiras.
         Ele a empurrou para a mesa, o contato frio do granito com os seus seios fez com que a pele dela ficasse arrepiada. Leandro parecia não se importar com isso, queria apenas satisfazer sua necessidade de possuí-la, de segurar seu quadril, de dominar a amante.
         A saliva dela se misturava ao sabor dos temperos que haviam sido manuseados na mesa, não tinha forças e nem vontade de sair dali, mas Leandro ainda tinha planos. Abruptamente aprumou-se, colocou-a de frente para ele e a encostou na parede. Dalila não tinha nenhuma outra opção que não fosse abrir as pernas para que novamente se enterrasse nela. Levou uns poucos segundos para que as roupas dele fossem retiradas. Agora que estava livre podia levá-la para o box. Com a água quente escorrendo por seus corpos, relaxaram sentiram o beijo um do outro, ele sabia ser carinhoso quando queria.
         Ela o beijou na orelha, pescoço, peito, barriga e nos pêlos crespos da virilha. Abriu a boca, deixou que a água do chuveiro a enchesse parcialmente, Leandro não fazia a mínima ideia de que experimentaria o melhor sexo oral de sua vida.
         Com o calor da boca aumentado pela água quente, o torpor causado pela excitação era muitas vezes maior. Quando sentiu que ele iria ejacular, Dalila deixou que ele o fizesse pelo seu rosto e seios, como símbolo de sua total rendição, como se aquele esperma fosse uma tatuagem, algo que indicava que ela tinha um dono.
         Deliciado, ele acariciou sua vulva até que também gozasse.
         Com uma toalha enrolada na cintura e ela completamente vestida, finalmente degustaram o prato que ele havia preparado.
         Dalila estava feliz, luxuriantemente feliz.
         Pensava em como se davam bem na cama, os corpos se ajustavam com perfeição. Leandro já não parecia aquele homem distante da última vez, ele até cozinhara para ela.
         ___ O telefone está tocando. Não vai atender?
         Ela sabia quem era, queria fingir que não estava em casa.
         ___ Alô.
         ___ Oi, morena linda, melhorou?
         Ela não sabia o que dizer, não com Leandro a encarando com tanta curiosidade.
         ___ Um pouco, tomei um remédio.
         “E que remédio!” __ pensou.
         ___ Ah, que bom, que bom. Não quero essa cabecinha linda doendo.
         A situação era no mínimo rara para ela, o namorado no telefone querendo saber como estava, se a dor de cabeça havia passado e o amante sentado a mesa olhando para ela. Na verdade ela sentia dor, mas uma dor gostosa nos músculos da vagina de tanto que haviam transado.
         ___ Amanhã estarei novinha em folha.
         ___ Que ótimo, minha querida. Eu só liguei para saber como você está.
         “Com a sensação de que eu não passo de uma vagabunda.” Pensou.
         ___ Obrigada por ter ligado.
         ___ Um beijo.
         ___ Beijo.
         De cabeça baixa, ela voltou para a mesa.
         ___ Olha, me desculpe... eu... eu acho melhor você ir embora.
         Estava profundamente culpada pela traição.
         ___ Não, eu não vou embora.
         ___ Por favor, não dificulte tudo ainda mais.
         ___ Dalila, eu não me importo que você esteja com esse cara ou com qualquer outro. Eu gosto de ficar com você. Quando der, a gente se encontra, sei lá.
         ___ Quando der?... Sei lá?... Não funciona assim! Eu não sou um assim! __ tentou se acalmar __ Por favor, eu já pedi, vá embora!
         Ela não se levantou da cadeira, apenas ouviu ele se movimentando, vestindo as roupas e batendo a porta.
         Pegou a toalha que ele usou e colocou na máquina para lavar e limpou toda a cozinha. Movimentava-se freneticamente para apagar a passagem daquele homem pela sua casa.
         Na manhã seguinte, sentiu falta de Lúcia no trabalho. Perguntou pela colega e disseram que ela tirara folga naquele dia para comparecer ao fórum, tratava-se da última audiência de divórcio.
         A moça vira as fotos do casamento da amiga, estava lindíssima, radiante em seu vestido de noiva. Em alguns anos, todos os sonhos viraram pó, sobrara apenas uma fria disputa da casa que compraram juntos e alguns objetos.
         Confiante, Dalila acreditava que com ela e Wagner seria tudo diferente. Ele era um homem pacato, sem grandes paixões, seria um casamento maduro.
         “Nós nos escondemos tanto e por tanto tempo, de mudanças ou até mesmo de perspectivas, que acabamos não sabendo quando parar de fugir e perdemos de fato o rumo.” __ pensou.
         Sabia que aquele pensamento se encaixava como uma luva em sua situação. O casamento jamais seria como ela sonhava, havia diversas nuances que ela estava desconsiderando, mas preferia crer que não eram significativas.
         A fim de comemorar a nova contagem do namoro, já fazia um mês que haviam reatado, reservou um quarto em uma pousada aconchegante em Conservatória. Wagner achou a ideia boa, descansar um pouco seria ótimo.
         Combinaram como seria a viagem e no dia marcado ele a pegou em casa.
         O tempo passa para todas as cidades, mas Conservatória parecia ter conseguido deter esse processo: ruas de pedra, plantas ao longo de toda a praça, igrejas lindas... Era um sonho estar ali, curtir aquele lugar. Havia muito que ver.
         Wagner queria ir para a pousada primeiro, deixar as malas e descansar um pouco. Dalila achou justo.
         Ele ainda estava no banho quando entrou uma mensagem no celular dela, não dizia quase nada, estava escrito apenas “Oi.” Leandro sabia se fazer ser lembrado. Pensou em responder, mas ignorar seria muito melhor, afinal, estava tentando fazer seu relacionamento dar certo.
         Foram conhecer o comércio local, compraram algumas lembrancinhas para dar de presente e pararam para almoçar em um restaurante delicioso. O dia estava sendo muito bom. Ela quis ir a um ponto turístico famoso, a Cachoeira da Índia, mas Wagner queria voltar para a pousada, disse que estava cansado. Ela o acompanhou com o semblante fechado.
         Não desistiria tão fácil de seus planos, à noite se arrumou toda e o acordou.
         ___ Acorda dorminhoco, hora de ir passear. Falei com a recepcionista, ela nos indicou uma seresta muito bacana. Vamos?
         ___ Dalila, andamos bastante hoje. Por que não ficamos aqui e vemos algum filme?
         ___ Porque filme nós vemos em casa.
         Vendo que ela não mudaria de ideia, ele resolveu sair da cama. Estava irritado, achou que iria descansar, dormir, pensou tudo, menos que teria que se cansar mais do que quando estava trabalhando.
         Havia um grupo de turistas animados no local, encontraram uma mesa e pediram bebidas.
         ___ Essas músicas são meio antigas.
         ___ Wagner, Conservatória é o berço da seresta. O que você achou que ouviria aqui?
         Preferiu ficar calado, não queria brigar.
         Quando já estavam um pouco altos, foram para a pousada. Dalila estava feliz consigo mesma, achara algo agradável para fazerem juntos.
         O café da manhã era repleto de delícias: bolos, geleias, queijos e frutas.
         O check out só seria feito no final da tarde, tiveram tempo de finalmente ir à cachoeira que ela tanto queria. Mas a água estava fria demais, não se molharam, apenas observaram a grandiosidade da natureza. Em momentos como esse, Dalila acabava deixando fluir o pensamento, ficava divagando em meio as suas lembranças, lembrando do passado, querendo conhecer o futuro. Parecia uma excelente ideia ficar parada ali, apenas admirando a paisagem, mas Wagner estava chamando por ela... ele estava falando alguma coisa, mas não conseguia entender o que era.
         ___ Nossa, estou te chamando a um tempão. Temos que ir!
         Não se podia dizer que a viagem não fora boa, apenas poderia ter sido melhor aproveitada.
         Sempre guardava na geladeira uma garrafa de vinho, aquela seria a companhia ideal para aquela noite. Não bebeu muito, apenas o suficiente para se sentir atraída por sua cama e ser embalada numa nuvem de sono.
         No dia seguinte, antes de ir trabalhar, recebeu outra mensagem, curta como a anterior: “Quero te ver.” Mais uma vez, não respondeu.
         Ela não era ingênua o suficiente para acreditar que Leandro a amava, no fundo do seu íntimo, sabia que tudo não passava de uma grande aventura para ele, o amante a queria porque não poderia tê-la de verdade.
         Manter uma relação com dois homens ao mesmo tempo era arriscado, poderia perder os dois, pior ainda, poderia perder o sonho de se casar com Wagner. Instintivamente sabia que a vida ao lado de Leandro seria dura, e, como um animal que busca um refúgio seguro para passar a noite, ela buscava um homem certo para viver.
         Ainda na infância, ouvira um antigo provérbio: “Contra a força, não há resistência.” Ela tentava lutar contra a frieza de Wagner, há dias ele não entrara em contato, não ligou, nem sequer enviou uma mensagem; por outro lado, Leandro a procurava, a queria, e ela não sabia como se sair da situação.
         A primeira semana após a viagem passou sem que Wagner ligasse para ela, todas as ligações partiram de Dalila para ele. Não duravam muito, apenas contavam um para o outro como estavam. Ele também não a convidou para ir a casa dele ou disse que iria até ela. Diplomática, a jovem preferiu não forçá-lo.
         Ligou para a Lúcia e a chamou para irem ao clube pegar sol e conversar um pouco. Sabia que o juiz havia ido a favor da amiga no divórcio, mas isso não impediu o marido de dizer coisas horríveis para ela.
         Leandro não desistia, se tornou mais insistente e passou de mensagens a ligações, algo em que também não obteve sucesso, pois suas chamadas eram sempre encaminhadas para a caixa de mensagem.
         A segunda semana também não foi diferente da primeira, exceto pelo fato de Dalila não procurar mais Wagner. Ambos já haviam vivido tudo aquilo antes, ele passava por longos períodos de ausência e, quando discutiam, a resposta era a mesma: “Eu não sei porque eu fico sem ligar. Mas eu sou assim, não estou fazendo nada demais, estou em casa.”
         O pior era saber que ele não estava mentindo, se ligasse para a casa dele a qualquer hora, o próprio atenderia.

         Ansiosa, acabou procurando-o, talvez estivesse com algum problema e não queria preocupá-la... Sabia que essa era uma desculpa gasta, já a usara várias vezes para desculpar a ausência do namorado, sabia que não deveria ser nada, mas ignorou seu sexto sentido.
         Wagner disse que estava tudo bem, que não havia problema algum com ele. Uma pergunta morreu em sua boca: “Por que não me ligou?”, por fim caiu como uma pedra em sua fina estima.
         ___ Wagner, para mim já chega, você disse que as coisas iriam melhorar entre nós, que coisas como essa não voltariam a acontecer! __ disse furiosa ­­­__ Eu tentei de tudo... mas você não quer mudar!
         Ela estava frustrada.
         ___ Dalila, depois conversamos, está bem? Agora não é o momento.
         ___ Isso é típico de você! Não quero conversar depois e nem hora nenhuma!
         Ela desligou o telefone sem se despedir. Seu corpo inteiro tremia, estava pálida, acabou buscando a porta do armário a fim de se apoiar.
         Não haveria consolo algum aquela noite que a faria dormir, queria companhia e sabia a quem procurar.
         Dessa vez Leandro se surpreendeu, achava que o caso estava perdido, que Dalila resolvera ficar em definitivo com o namorado, ela não respondera a nenhuma das mensagens, nem retornara suas ligações. Ele havia pesquisado sobre seu concorrente, sabia como ele era, onde trabalhava, onde morava e o que fazia nas horas vagas. Como policial, não tivera dificuldade alguma em levantar esses dados de Wagner.
         Sagaz, percebeu o sofrimento em seus olhos, se divertiu por uns segundos pensando no que o outro teria feito para que estivesse assim. Isso o divertia porque sabia o quanto ela estava vulnerável e, mesmo com a forte maquiagem usada, não havia como deixar de perceber que várias lágrimas haviam sido vertidas por aqueles lindos olhinhos.
         Mentalmente agradeceu ao seu concorrente, a sua imperícia em lidar com a própria companheira.
         ___ Venha! __ disse seco.
         Dalila teria de aprender a não fugir.
         Levou-a dessa vez para a casa dele, esse era o toque doce naquele encontro, o restante seria no mínimo um pouco ácido.
         Não bancou o cavalheiro oferecendo-lhe água ou qualquer outra coisa, também não permitiu que ela observasse bem o ambiente, parte disso se devia ao fato de que estava morrendo de vontade de possuí-la, a outra parte era simples, ele não conseguiria manter a máscara por muito tempo. Ela encontraria o que estava procurando. Ali a vida da jovem começaria a mudar.
         Na cama, pondo todo o peso do seu corpo para deixá-la imobilizada ele perguntou:
         ___ Por que não respondeu as minhas mensagens?
         ___ Eu não ... podia. __ gaguejou __ Eu estava com o meu namorado, nós viaja...
         Foi surpreendida por um beijo violento, ele mordeu seu lábio inferior.
         ___ Não quero saber o que vocês estavam fazendo, nem onde estavam.
         Em seguida ele literalmente rasgou sua blusa.
         ___ Leandro, para com isso! Você está me machucando.
         Ainda com a mão no que sobrou de sua blusa, ele parou e a olhou com olhos meigos.
         ___ Desculpa, eu não pretendia.
         Ela sorriu, mas algo no olhar dele mudou.
         ___ Se quiser pode ir embora. Vai, pode ir. __ suas palavras foram acompanhadas de um gesto de despedida e afastou-se dela.
         ___ Espera, também não é assim... Eu... eu só... não esperava.
         Com mil sorrisos por dentro, ele retornou a carga total: sugou-lhe os seios, abriu caminho entre seus lábios receosos, acabou fazendo com que ela entrasse no jogo. Dalila aprenderia pela força, um dia estaria pronta para não lutar, para se entregar totalmente.
         Ela estava perdida, parecia não haver saída naquele labirinto que criara para si mesma, todos os caminhos aparentavam não levar a lugar algum, resolveu resignar-se. Acalmou o corpo da maneira que pôde, disse-lhe que não se tratava de uma violência, era apenas uma maneira diferente de alimentá-lo.
         Por instantes ela percebeu que Leandro estava irritado, quase com raiva, a calcinha não cedeu à brutalidade dele, esgarçou, cravou-se na pele, mas não rasgou. Aquilo pareceu deixá-lo confuso, algo o detivera. Mas os instantes de hesitação foram muito breves, novamente ele era senhor de si, nada se colocaria entre ele e sua presa.
         Tirou o obstáculo do caminho com maior rapidez possível.
         “Ah, eu te quero... ah... preciso de você!...” pensou Leandro.
         Ao penetrá-la, pareceu esquecer-se completamente de que era ela, Dalila, quem estava ali, como da primeira vez em que estiveram juntos, ele parecia mais uma máquina potente e menos um amante. Incrivelmente chegaram ao clímax juntos.
Estavam exaustos, sem vontade de conversar. Em silêncio, Dalila vestiu o que sobrou de suas roupas, mas a blusa de seda estava em farrapos, abriu o armário dele, pegou uma camiseta.
         Leandro parecia ignorar que ela estava indo embora, não fez menção de impedir sua saída.
         Como ele morava perto de uma das mais belas praias do Rio de Janeiro, não foi longa a caminhada até lá, e, embora a lua já figurasse no céu, alguns casais passeavam por ali, uns namoravam, outros apenas contemplavam aquele espetáculo oferecido pelas estrelas brilhantes e a lua refletida no mar.
         Pensou em caminhar, mas não sabia bem para onde queria ir, deduziu que para onde quer que fosse seus fantasmas a acompanhariam. Sentou de frente para o mar, apreciando o quebrar das ondas na areia e o véu que formavam. Não soube precisar quanto tempo ficara ali parada, mas sabia que já era tarde e rumou para casa.
         Sentiu algo macio embaixo dos seus pés e quando olhou para baixo, viu que era um buquê de rosas. Alguém o havia deixado em sua porta. Havia um cartão: “Saudade de você!”. Logo abaixo estava a assinatura de Wagner.
         Ainda que a hora estivesse adiantada, eram quatro horas da manhã, mandou uma mensagem para o celular dele agradecendo pelas rosas. Quando se preparava para dormir, o telefone dela tocou.
         ___ Alô. __ disse com voz de sono.
         ___ Onde você estava? Esperei por duas horas!
         ___ Wagner, agora sou eu quem digo, esse não é o melhor momento.
         ___ Dalila, eu te fiz uma pergunta e quero saber a verdade: onde você estava?
         ___ Verdade? Que verdade? A de que você sempre me deixa sozinha? A de que você não me ama?
         ___ São quatro e meia da manhã, estive na sua casa e você não estava, chegou agora. Eu tenho o direito de saber onde minha namorada anda!
         ___ Namorada? Acho que não somos namorados há muito tempo! Há três semanas não nos vemos.
         Ele ficou mudo do outro lado da linha.
         ___ Ah, agora não sabe o que dizer, não é?
         ___ O que eu sei é que você estava em algum lugar, e desconfio que não vou gostar de saber a resposta de onde era.
         Mesmo a verdade sendo cruel, colocou tudo para fora.
         ___ Tem razão! __ respirou forte __ Estava com outro homem!
         O silêncio foi mais marcante e aterrador dessa vez.
         ___ Eu não tenho mais nada para falar com você, Dalila!
         A linha ficou muda, nenhum sinal de vida do outro lado. Não sobrara resquício do que haviam sido um dia. Duas pessoas que estavam se conhecendo, duas pessoas que a sua maneira tentaram fazer dar certo o que supunham ser uma união, duas pessoas carentes, mas que não tinham carência um do outro.
         Ela perdera completamente o sono, mas não sentia ânimo para levantar da cama e foi ali, acamada, que Lúcia a encontrou, devido a sua ausência por três dias no trabalho. Depois de muito bater na porta, se deu conta de que ela estava aberta, chamou pela dona da casa e não obteve resposta.
         A amiga percebeu que algo não ia bem com Dalila,  a moça estava com o rosto abatido e a camisola parecia estar ensopada de suor. Quando tocou em sua testa, sentiu que a temperatura estava muito acima do normal.
         Sendo uma mulher de atitude, tratou de levantar o corpo frágil de Dalila e levá-la até o chuveiro, cuidaria primeiro da menina, depois perguntaria o que estava acontecendo.
         Com roupas limpas e uma comidinha improvisada na sua frente, Lúcia fizera uma revista na geladeira, era a hora de Dalila contar o que acontecera. Mas não teve coragem de falar tudo, resumiu a história ao término do namoro, argumentou que deveria ter tido um esgotamento nervoso, e Deus era prova de que havia sido isso mesmo. A pressão sofrida pelo relacionamento duplo, a dor que com certeza havia causado em Wagner e a estranha relação que tivera com Leandro, a levaram a tudo isso.
         Lúcia foi extremamente discreta, usou palavras de incentivo, mas não se aprofundou no ocorrido. Dois dias depois, Dalila voltou ao trabalho.
         “Cinco dias com um problema de saúde no meio e Leandro não fez nenhum contato.” Pensou.
         Como se captasse sua observação, ela recebeu uma mensagem: “Passei uns dias fora. Vamos nos ver hoje?”
         Respondeu dizendo que estivera doente e ainda não estava completamente recuperada, ele estimou suas melhoras.
         “Até que ele é educado.” Concluiu.
         Dalila conversou com o chefe de seu setor, lembrou-o de que não havia tirado férias ainda e pediu um afastamento por pelo menos quinze dias e, como era uma excelente funcionária, ele concordou sem fazer perguntas.
         Despediu-se dos colegas e pôs-se a escolher o lugar para onde iria. Sempre ouvira falar de Gramado, no sul do país, ficou com vontade de conhecer. Pesquisou um pouco e encontrou um hotel simples e com um precinho bem razoável. Aliado a isso, o mês não poderia ser melhor, março é considerado um período de baixa temporada com relação ao turismo, os preços das passagens aéreas também diminuíam nessa época do ano.
Uma semana talvez fosse pouco, mas seria bom estar sozinha, descansar, dar um pouco de paz para sua alma tão perturbada.
Um dia antes de viajar, Lúcia foi a sua casa, levando-lhe um presente. Um cordão de prata com um pingente no mínimo inusitado: uma cobra, de aproximadamente três centímetros, adornada com marcassita.
___ Não faça essa carinha de assustada. A serpente tem vários significados, sabia? Para os Maias, o descamar da pele faz dela um símbolo de renascimento e renovação, a víbora também aparece na mitologia nórdica como símbolo de renovação, além de representar o cosmos, a totalidade e a energia cíclica.
Dalila estava emocionada.
___ Pensei no que você me contou... sofri muito durante a minha separação, mas... de alguma maneira... eu consegui superar.  Quero o mesmo para você.
Dalila envolveu a amiga em seus braços em um agradecimento mudo, mas bastante emblemático.
         Viajou no dia seguinte bem cedinho, preferiu não contar para Leandro seu destino, apenas olhou a casa, respirou fundo e foi embora.
Encontrou a cidade deserta, isso lhe trouxe certa melancolia, mas sabia que seria assim, ainda mais nessa época do ano. O cenário era belíssimo demais para que quisesse compartilhá-lo com outras pessoas, queria aquelas praças e ruas todas só para si.
Pensou um pouco em Wagner, no que ele estaria fazendo aquela hora, mas não era justo pensar nele, não depois de tudo o que fizera. Pensou em Leandro também, bloqueara todas as chamadas dele e o recebimento de mensagens. Ele poderia até achar isso injusto, mas ela não pensava assim.
“Às vezes é difícil se encontrar quando nos perdemos dentro do outro.” Pensou. “No meu caso eu literalmente me perdi dentro de outros.”
Havia amargura em seu coração e estava ciente disso, mas não era hora de entrar em contato com sua dor.
Longe do calor do Rio de Janeiro, se deliciou com o friozinho gostoso que fazia à noite; só poderia estar sonhando. Embora não estivesse a procura de agitação, a vida noturna parecia ser bastante animada, pessoas de todas as idades ocupavam os bares e restaurantes, da região.
“Isso me lembra um pouco o Rio.”
Os gritos de duas crianças chamaram a sua atenção, elas brincavam em frente a Igreja Matriz São Pedro Apóstolo, uma belíssima construção que datava originalmente de 1917. Ao longo do caminho que levava à igreja havia estátuas dos doze apóstolos de Jesus, iluminadas com luzes artificiais.
“Lindo, lindo, lindo!”
Como boa turista que era, mais o fato de estar sozinha e ser senhora de seus passeios, Dalila caminhou pela cidade, de manhã à noite até se cansar.
No dia do embarque, aproveitou para dar uma última caminhada; voltaria assim que possível, disse a si mesma.
         Não havia ninguém esperando por ela no aeroporto, os pais haviam falecido há muito tempo, não tinha irmã ou irmão, era ela e somente ela. Sentia muita falta desse laço com o mundo.
         Já em casa, resolveu não desfazer a mala, deixaria isso para depois, pensava em pedir algo para comer, quando a campainha tocou. Acreditando que fosse Lúcia, que sabia a data e a hora de sua chegada, abriu a porta dizendo que estava muito feliz por vê-la, mas a visita era outra pessoa.
         ___ Wagner.
         Ele a olhou. Ela estava linda, com uma ótima aparência.
         ___ Eu mesmo. __ tentou sorrir.
         Dalila o convidou para entrar. Ele sentou no sofá e fingiu não ver a mala na sala. Sabia que ela havia viajado, conseguiu a informação com Lúcia.
         ___ Você... você está linda.
         Aquilo a surpreendeu.
         ___ Obrigada.
         Ela estava ansiosa, não fazia ideia do que ele queria falar, mas pelo menos não parecia disposto a brigar.
         ___ Eu sou um homem infeliz, Dalila. Não sei lidar com as pessoas que gostam de mim, acabo fazendo tudo errado.
         Falar sobre os seus sentimentos era algo dificílimo para ele. Wagner havia tido uma infância pobre, fora criado pela avó, no sertão da Bahia, aos vinte e um anos não havia terminado os estudos, trabalhara na roça para ajudar nas finanças da casa. A mãe havia se casado novamente e tivera um outro filho, Roberto.
         Quando chegou ao Rio, sentiu que não havia lugar para ele. Tratou de estudar e trabalhar ao mesmo tempo, progrediu na empresa. Aos quarenta e dois anos, tinha uma bonita casa e um carro. Mas as marcas do passado fizeram dele um homem seco, como o sertão de onde viera.
         ___ Eu sei o que pode ter acontecido com você. __ continuou __ A carência faz muitas coisas. Acredito que pode ter sido isso que a fez se aproximar desse cara, desse homem com quem você se envolveu.
         ___ Olha, Wagner, você me desculpa, mas eu não quero conversar sobre nada disso. Sei que deve ser difícil para você vir aqui e falar todas essas coisas para mim, mas acho que nós não temos mais futuro, muita coisa aconteceu...
         ___ Dalila, se eu fosse você não me precipitaria assim, as coisas podem mudar...
         ___ Não... as coisas não vão mudar entre nós.
         ___ Tudo bem. Se cuida.
         Tocou-a de leve no braço e se foi.
         “Nem sempre o bem vem acompanhado de felicidade.”
         Leandro sempre fora um homem arrojado, não aceitaria uma recusa de quem quer que fosse. Foi a casa dela e encontrou tudo fechado, esperou por mais de uma hora que ela voltasse, quando viu que isso não aconteceria, invadiu a casa pela cozinha, forçou a porta um pouco e ela abriu, a fechadura não era muito boa, era só bater que trancava por fora.      
         Foi direto para o quarto, as roupas ainda estavam no armário, embora alguns cabides estivessem jogados na cama. Inteligente, deduziu que ela deveria ter viajado para algum lugar.
         Agora ali estava ele, de frente para a casa dela, vendo Wagner ir embora de cabeça baixa.
         “Ele é um perdedor!”, pensou impiedoso.
         Daria um tempo para Dalila. Todas as suas chamadas foram encaminhadas para a caixa de mensagem, ela não queria vê-lo e, pelo visto, também não queria ficar com aquele sujeitinho.
         “Deve estar cheia de coragem, achando que é livre.”
         Um plano começava a se formar em sua cabeça, um que faria Dalila ser sua para sempre. Foi embora contente consigo mesmo.
         Estranhou o fato de Leandro não procurar mais por ela, chegou até a pensar em ligar para ele, mas isso seria errado, talvez fosse a mão do destino agindo em sua vida, poderia ser um sinal de que tudo deveria acabar ali. Mas o destino não tinha nada a ver com o que estava acontecendo.
         Ele a procurou, foi a casa dela.
         ___ Oi. __ sorriu encantador __ Desculpe aparecer sem avisar, mas liguei para você várias vezes e as chamadas eram encaminhadas direto para a caixa postal.
         ___ Leandro, foi bom você ter vindo. Precisamos conversar...
         Ele a interrompeu:
         ___ Minha experiência me diz que quando as mulheres dizem isso, geralmente as notícias não são boas. __ disse, cheio de charme __ Que tal conversarmos durante o jantar? Preparei umas coisinhas especiais para nós, nada demais.
         ___ Eu não sei...
         ___ Vá se arrumar. Vou me comportar, prometo não encostar em você.
         ___ Já que você está aqui... posso falar agora mesmo.
         ___ Assim não. Prefiro que seja especial.
         Com isso, Leandro deu a entender que sabia dos planos dela, mas queria uma despedida a altura do que viveram. Dalila achou que não havia problema algum em aceitar o convite.
         Pediu que ele a esperasse na sala enquanto se preparava para sair.
         Ao chegar ao apartamento de Leandro e ver aquela linda mesa posta, sequer reparou nos movimentos dele: a porta da entrada não fora trancada, a que dava para a varanda, que vivia fechada, estava aberta, corria uma brisa leve e suave, um cheiro de maresia.
         ___ Nossa, Leandro, você se superou!
         ___ Aceita um vinho?
         ___ Obrigada.
         Ainda deslumbrada com o clima do ambiente, não observou que ele mesmo não se serviu da bebida.
         ___ Selecionei umas músicas que eu sei que você gosta. Vou colocar.
         ___ Leandro... você assim tão romântico, não sei não... Vou acabar achando que você está querendo me desviar do assunto que temos a tratar.
         Ele sorriu misterioso.
         ___ Relaxa, eu... eu sei o que você quer falar comigo, eu só quero que seja mais fácil de lidar com tudo isso quando você for embora.
         Ela foi para a varanda, segurou na grade de proteção e mirou o céu estrelado. Displicentemente ele se aproximou dela por trás, não a tocou, mas fez com que Dalila sentisse sua presença.
         ___ Sua taça está vazia, posso encher?
         ___ Acho que não é uma boa ideia, já tem um tempo que eu não bebo...
         ___ Não se preocupe, não vou te embebedar.
         Rápido, a garrafa já estava em sua mão, ele tornou a servir a bebida.
         ___ Tenho certo medo de altura. __ disse ela __ Jamais moraria assim, no décimo andar de um prédio.
         ___ Esse apartamento eu herdei da minha avó, não teria dinheiro para morar aqui em Copacabana se não fosse assim. Mas a cobertura tem suas vantagens, não tem olhos curiosos para espiar.
         Leandro acariciava o ombro dela, percebendo que não foi rejeitado, continuou pelas costas. Dalila sentia que estava sendo tomada novamente pelo desejo. Embora lembrasse vagamente de sua vontade de terminar tudo, era tarde demais para parar o que estava sentindo.
         Permitiu que ele levantasse o seu vestido, que baixasse a calcinha, que a tocasse...
         Lentamente foram se abaixando, até que o chão fosse a cama que lhes faltava.
         Ele sabia que a porta estava se abrindo, já era hora. Dalila gemia em seus braços, ora dizia que era a última vez, ora dizia para que ele continuasse. Leandro a instigava:
         ___  Fala que é assim que você gosta! Fala!
         ___ É assim que eu gosto.
         ___ Sua safada... gostosa. Aquele seu namorado não era de nada.
         ___ Por favor, não pare.
         ___ Tá quase gozando, não é?
         ___ Estou sim... ai.
         ___ Ele não fazia assim com você!
         Dessa vez ela nem respondeu, apenas gemeu alto.
         ___ Tá cansadinha, tá?...
         Suspirou fundo, antes de abrir a boca.
         ___ Foi maravilhoso. __ disse ela.
         Sentindo o suor incomodando, o cabelo molhado, Dalila começou a se levantar, quando finalmente viu quem havia chegado.
         ___ Wagner! __ gritou.
         Os três apenas se encaravam. Ela estava confusa e envergonhada, não conseguia entender como o ex chegara ali, nem como conseguira entrar. Ela não sabia que o porteiro já havia sido avisado da chegada de Wagner, Leandro autorizara a subida dele e pedira para o empregado não interfonar para o apartamento. Acostumado a receber os amigos do morador, Severino não questionou, apenas obedeceu.
         Premeditado, Leandro ligara para Wagner contando detalhes do caso que tivera com Dalila. Mordaz, resolveu lembrar um fato em particular:
         ___ Teve um dia que ela pediu para ir embora do shopping, lembra?
         Wagner não respondeu.
         ___ Vou refrescar a sua memória: ela disse que estava com dor de cabeça.
         Wagner lembrava bem daquele dia, tinham acabado de reatar o namoro.
         ___ Ela voltou para se encontrar comigo. __ mentiu __ Fui eu que dei o remédio que ela precisava. Depois você ligou perguntando se ela estava melhor.
         Wagner apertava com tanta força o aparelho de telefone que seus dedos chegaram a perder o sangue embaixo das unhas.
         ___ A Dalila não passa de uma vagabundinha que eu pego a qualquer hora. __ continuou provocando.
         ___ Não fala assim dela, seu merda!
         ___ Quer saber, vou te dar uma oportunidade de ver como ela é comigo. Vou te mandar data, local e hora. Se quiser, vai lá ver, o show vai ser de graça.
         Leandro enviou a mensagem de seu próprio celular, queria que ficasse registrado o seu número de telefone.
                  ___ Gostou do que viu? Aprendeu alguma coisa?
         Dalila começou a entender tudo aquilo. Cambaleou para a sala.
         ___ Seu desgraçado. Você é um idiota. __ a voz de Wagner saiu estrangulada.
         ___ Será? Mas foi comigo que ela teve um orgasmo. Alguma vez você a ouviu gemer daquele jeito? Hum, pela sua cara, acho que não.
         Wagner partiu para cima do dono da casa, tentou acertar um soco nele, mas o outro desviou e começou a rir bem alto.
         Dalila assistia a tudo horrorizada, estava perplexa com a maldade de Leandro.
         “Ele é um monstro!”, pensava a todo instante.
         Quando tornou a olhar a briga, o que viu a deixou em estado de choque. Em uma nova tentativa frustrada de acertar seu alvo, Wagner perdeu o equilíbrio e bateu com força na grade, nesse momento, Leandro o empurrou com força pelas costas.
         Dalila piscou várias vezes os olhos, achando que talvez tivesse imaginado tudo aquilo, mas quando os abria, via apenas um homem naquela varanda.
         Atônita correu para a sacada. Wagner estava lá embaixo, na calçada e saía sangue de sua cabeça, curiosos começavam a se juntar a volta dele.
         ___ Seu louco, olha o que você fez!
         Leandro a encarava friamente.
         ___ Ele não podia ficar entre nós.
         Dalila apertava freneticamente o botão do elevador, mas estava demorando demais, resolveu ir pela escada, com Leandro em seu encalço.
         Ele jazia imóvel no chão. Leandro se aproximou e verificou os sinais vitais, em seguida pegou o telefone e ligou para o Corpo de Bombeiros.
         ___ Alô. Por favor, mandem uma ambulância aqui para a rua Felipe Oliveira, esquina com a Avenida Princesa Isabel. Meu nome é Leandro e meu amigo acabou de sofrer um acidente, ele caiu do meu apartamento no décimo andar.
         Apenas algumas palavras penetraram no cérebro de Dalila: “amigo” e “acidente”.
         “Desde quando o Wagner é amigo de Leandro?”, pensou, “E isso não foi um acidente!”
         Leandro se identificou como sendo policial e pediu que as pessoas se afastassem.
         ___ Antes que você pense em falar qualquer coisa, ouça bem o que eu vou te dizer: ele está morto.
         Ela tapou a boca com a mão para não gritar.
         ___ Nem pense em me acusar, porque eu vou dizer que vocês discutiram, você bebeu um pouco a mais e empurrou ele. Sabia que mesmo uma mulher magrinha como você pode fazer isso? Não precisa de muita força, é questão de jeito. Uma vez tivemos um caso desse na delegacia, a esposa matou o marido para ficar com o amante. No seu caso, você o matou porque acreditava que ele a estava perseguindo. Viemos aqui para conversar, ele também, eu tentei mediar a situação de vocês, quando tudo saiu do controle, vi quando você o empurrou. Tentei ajudar, mas era tarde demais.
         Ela se sentia pequena, sozinha, desprotegida. Nunca imaginara que as coisas chegariam onde chegaram. Wagner estava morto e a culpa era sua.
         ___ Tem outro pequeno detalhe... __ Leandro fazia pausas em sua fala, queria que ela absorvesse o significado de cada palavra __ Eu não consumi uma gota de álcool, estou limpo, e minhas digitais não estão naquela varanda, só as suas e as dele. Minha faxineira é ótima, me conhece desde moleque, ela veio ontem e fez questão de polir os vidros e a barra de proteção da varanda. Entende o que isso significa? __ continuou falando no ouvido dela __ Ou eu posso dizer que foi um acidente, que você não teve nada a ver com isso. Vocês vieram jantar comigo... Esse vai ser o nosso segredinho. Você me pertence!
         Nesse momento, Dalila soube que sua vida estava completamente arruinada... achou que iria vomitar.
         ___ Vamos esperar a poeira baixar, vou dar o meu depoimento e depois podemos voltar a nos encontrar.
         Leandro a segurava, mas muito discretamente, não queria que as pessoas ficassem de olho neles. Dalila se desvencilhou, deu um passo para trás e tratou de se afastar.
         A atitude dela não estava nos planos, teria que pensar rápido, porque já avistava as luzes da ambulância e a polícia chegaria em breve. Diria que estava esperando o amigo para jantar, foi pegar uns petiscos e não o viu cair da varanda. Não o conhecia muito bem, não sabia se ele estava passando por algum problema, ou se tinha tendências suicidas.
Dalila pagaria caro por ter ido embora. Ele ainda poderia dizer que ela fora a culpada, que não a vira entrar. O porteiro era muito devagar, sempre demorava para trancar a garagem quando um morador entrava ou saía, havia um ponto cego ali, as câmeras estavam mal posicionadas e ele sabia disso.
         Ela não chorou, não conseguia chorar, estava em estado de choque. Fez sinal para o primeiro táxi que encontrou, pediu que o motorista a deixasse no Arpoador.
         Tinha uma verdadeira história de amor com aquela praia, estando alegre ou triste, Dalila sempre ia para lá. Caminhou para uma parte específica da enorme pedra que havia ali, aquele era o seu cantinho.
Lágrimas quentes desceram pelo rosto dela, indo de encontro a dureza da pedra.
         Talvez a polícia já estivesse a sua procura, talvez...
         ___ Ele não vai conseguir me aprisionar, não..., ah, ele não vai... Eu sou mais forte! __ falava consigo mesma enquanto se levantava, suas mãos tremiam, embora não estivesse com medo __ Vou lutar, vou provar que sou inocente...
         Suas palavras eram acompanhadas de passos para frente. Dalila sabia que seria impossível colocar em prática o que dizia para si mesma, Leandro a enredara em uma teia de mentiras com linhas muito fortes. Mas ainda havia algo que poderia fazer, havia um lugar onde poderia se abrigar, um lugar onde as garras de Leandro não a alcançariam, tudo seria silêncio e paz.
         Tirou as delicadas sandálias que usava, sentiu a força da natureza embaixo de seus pés e finalmente deixou que o vento acariciasse sua pele e a espuma das ondas lhe fornecessem um manto.